Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006

Histórias da Serra da Estrela

A história que se segue foi contada por Henrique Mendes Brites. O texto foi retirado do Jornal "O Cão" Nº 6 (2.1 Mb) - http://www.apcse.com.pt/downloads.htm


"... Há cerca de 40 anos comprei uma quinta a seis quilómetros da cidade da Guarda, chamada “Quinta da Cerdeira”. (...)

Num dia de inverno (naquela altura muito rigoroso quanto ao frio que fazia) ela teve uma ninhada. Quando as crias tinham cerca de dois meses, veio um enorme nevão que interrompeu o transito nas estradas. Além da muita neve que havia caído fizeram-se sentir temperaturas tão baixas (cerca de 8 a 10 graus negativos) que impossibilitou a descongelação da neve. Recordo-me perfeitamente que estive sem lhe poder levar comida durante quatro ou cinco dias, julgando até que eles tivessem morrido à fome, pois ela já não dava leite.

Quando o tempo permitiu, lá fui levar-lhe comida, mas sempre receando o pior. Qual o meu espanto quando, ao chegar à casota que os acolhia, vi, por cima da neve, portanto fora da casota, um osso com alguma carne (uma perna). A neve ensanguentada e eles, felizes da vida derriçando na comida com muito apetite. Tratava-se sem dúvida de UMA MÃE SERRA DA ESTRELA!

Mais tarde numa outra ninhada, de cerca de mês e meio, aconteceu o seguinte:

Eu tinha feito, junto à casa, umas enxertias em videiras bravas (bacelo) que havia plantado no ano anterior. Quando entra a primavera é preciso saber se os enxertos pegam. (...) Pois um belo dia já a maior parte dos enxertos estavam pegados e, ao levar-lhes comida, verifico que eles na brincadeira tinham danificado grande parte deles. Fiquei de tal maneira furioso que perdi as estribeiras. Peguei numa giesta seca que encontrei ali perto e bati com ela tanto na mãe como nos folhos, berrando e correndo atrás deles para continuar a bater-lhes. Em resumo perdi a cabeça: furioso, arrependi-me e fui embora sabe Deus como.

Durante quase uma semana continuei a trazer-lhes comida, mas os cachorros tinham desaparecido. Ela, a mãe, olhava para mim, para a comida, muito triste, muito meiga, lambendo-me as mãos como que agradecendo. Mas não tocava na comida: esta, no entanto desaparecia...

Um dia, intrigado, deixei-lhe a comida, despedi-me dela com meiguice, entrei no carro e vim embora. Só que parei o carro a uma distancia de 200 a 300 metros e resolvi espreita-la. Qual o meu espanto quando, quase de imediato, a vejo atravessar a estrada com comida na boca, desaparecendo para dentro de um pinhal novo, com cerca de sete ou oito anos, muito cerrado, regressando para voltar a fazer o mesmo por duas ou três vezes até acabar a comida!

Fiquei a saber que ela tinha levado para lá os cachorros onde estiveram cerca de oito a dez dias, fugindo assim à tirania do dono que tão cruelmente os havia tratado (então já arrependidíssimo)!

Tentei no dia seguinte, com ajuda de outra pessoa recolher os cachorros, mas eles fugiram de nós, talvez recordando os maus tratos a que os haviam submetido. Desgostoso e arrependido mil vezes de os ter maltratado, regressei a casa pensando no que havia de fazer.

Lembrei-me então de pedir a um amigo que tinha um talho, umas aparas de carne e alguns ossitos pequenos (que foram muitos), Fui ter com a cadela, mostrei-lhe o saco com eles, chamei-a e encaminhei-me para o pinhal onde ela escondera os cachorros. Tentei aproximar-me o mais possível deles, despejei o saco no chão e, falando com a cadela, - digo falando porque eles, SERRAS DA ESTRELA, nos entendem. E isto só quem sente uma grande paixão e admiração por estes nossos amigo o sabe – dizia eu, falando e acariciando-a com meiguices, disse-lhe: - isto fica aqui para ti e para os teus filhotes. Despedi-me dela com ternura, e mais uma vez arrependido de os ter tratado tão cruelmente.

Qual o meu espanto!!!

No dia seguinte, quando voltei para trazer mais comida, a cadela e os seus filhotes estavam em casa junto do lugar onde tinham nascido!

Ela, junto de mim, gemia de contente e lambia-me as mãos; os cachorros brincavam junto de mim. Foi a mãe que lhes disse que podiam voltar? Foi a mãe que compreendeu o que lhe dissera no dia anterior?

De facto, os cães não falam mas que entendem e são os mais fiéis amigos do seu dono, ainda que num momento de desespero e de irritação os tratemos de uma maneira que eles não merecem. Além do mais, o SERRA DA ESTRELA sabe perdoar e esquecer, bastando para isso uma palavra meiga e uma caricia.

Foi assim que nasceu a minha paixão e admiração pelo cão SERRA DA ESTRELA."

Publicado por Nuvem Branca às 10:35
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